sábado, 14 de abril de 2007

Minha história de rebeldia

Professores, alunos e pintinhos

Tive muita sorte de só ter ido pra universidade no início dos anos 80, pois, com certeza, se tivesse uns 10 anos a mais, eu seria presa e sofreria as agruras da ditadura militar.
Tive a sorte de ter alguns grandes mestres, como José Vicente - prof. de química, que apesar de química não ser "a minha praia" este professor dava lição de vida também.
Já na "minha praia", tive Ruth Franco, excelente educadora, ótima coordenadora e mestra no magistério, que me apresentou "caras" como Paulo Freire e "rainhas" como Ruth Rocha. Desde aquele tempo achava que o nome Ruth deveria significar grande educadora, pois conheci várias!
Mas quero contar sobre minha rebeldia: referi-me a estes professores, porque desde o início, ainda criança, me ensinaram a ter espírito crítico, a questionar e avaliar além das aparências, a não ter preconceitos e, principalmente, a ter humildade profissional.
Estava no 3° ano, pré-vestibular e tive um professor de geografia que, infelizmente, não se enquadrava no grupo acima.
Curtíamos a liberdade de formandas do Curso Técnico Pedagógico (como mudam os nomes dos bois, não é mesmo?) e adorávamos a liberdade de passear pela rua no horário do intervalo. Ir à padaria lanchar ou ao antigo barzinho do Lido em frente à praia de São Francisco, era Show de Bola!
Mas, como fazíamos parte do grupo menos favorecido, pra não dizer "duros", adorávamos mesmo era ir à feira livre nas quintas-feiras. E, numa destas em especial, minha avó (já bem velhinha) pediu-me que comprasse uma dúzia de ovos para fazer um bolo para a filhinha da empregada (a lindinha, Ritinha, tinha 4 aninhos e nunca havia ganho um bolo de aniversário!).
A feira tinha uma ótima promoção: compre uma dúzia de ovos e ganhe um pintinho!
Ouvi alguém perguntar:
- Vai levar pra escola??? É aula do "chato da Geografia"!
Levei. Ele era lindinho e seria mais um presentinho para Ritinha!
Ao entrar perguntei ao inspetor - Sr. Paulo - recém chegado - onde poderia guardar o bichinho até o fim das duas intermináveis aulas.
O pobre Paulo, achando que um inocente pintinho não faria mal, guardou-o em sua caixinha num armário próximo à sala.
Ao iniciar a aula, o pobrezinho danou a piar, senti um enorme frio na espinha! Minhas pernas tremiam e já me preparava para pedir desculpas e levar o bichinho dali, quando, ao me levantar, escutei:
- Vá cuidar de seu filhote em outro lugar!
Toda minha vergonha se transformou em indignação! Engoli em seco, contei até três, e disparei:
- Pelo menos ele tem o carinho de alguém, pois certas pessoas são tão grosseiras, porque devem ser filhas de chocadeira e nem mesmo uma galinha pode lhes dar educação!
Como não tinha defesa, o autoritário general decretou minha suspensão até o vestibular!
O grande Paulo pegou a caixinha com o pintinho e levou pra bem longe dali, mas eu me recusei a sair de sala, enquanto o professor não aceitasse minhas desculpas.
Ele foi irredutível e eu também. Não sairia dali, pois não tive má intenção e precisava estudar para o vestibular.
Ao ver que ele continuava irredutível, saí. E, depois de mim saíram todos, um por um, seguindo para a secretaria.
Na semana seguinte, tínhamos outro professor de Geografia, mas pintinho também, nunca mais!

Jenny dos Santos Horta - Niterói RJ - Colégio Assunção – 1981
Você pode ler os blogs da Jenny aqui e aqui.

2 comentários:

Maria Muadié disse...

A sua idéia de "Histórias de professores" é muito bacana!
Adorei.

Andrea DC disse...

Fátima, adorei este espaço; e mais ainda ver as profe relembrando momentos realmente significativos. Parabéns