domingo, 21 de janeiro de 2007

A primeira vergonha

Minha primeira experiência como professora foi quando ainda era estudante do Curso Normal. Eu tinha 17 anos e não vou contar em que ano foi isto, claro! Fui trabalhar no projeto MOBRAL, um projeto governamental, que tinha o objetivo de alfabetizar todos, em pouco tempo.Bastante apavorada, por estar começando, por ter um monte de alunos muito mais velhos que eu, e ainda ter tanto que aprender, me vi à frente de uma sala de aula que funcionava num clube de futebol, onde o quadro negro eram folhas de papel pardo, e eu escrevia com pincel atômico ( já existia, viu, gente?) e onde as carteiras do alunos era uma mesa de jogo. Sim! uma mesa daquelas forradas com alguma coisa fofinha e coberta de verde.Como é que pessoas acostumadas a trabalhos pesados, com os dedos já durinhos, podiam escrever alguma coisa naquela mesa?
Se eu tivesse mais experiência, poderia ter jogado baralho para ensinar matemática.Mas, eu nem imaginava que poderia fazer isto!! Depois, aprendi!!!
Começou minha primeira etapa de reclamações e consegui que a classe fosse transferida para o salão de uma igreja.Fui promovida! Havia quadro, carteiras, uma iluminação péssima, mas pelo menos se parecia com uma sala de aula.
Foi nesta época que passei a primeira vergonha.Como primeira atividade do dia, estava escrevendo a data no quadro, quando entrou pelo salão... o secretário de educação do município.
Que medão!Até hoje me lembro do frio na barriga.
Depois de conversar com os alunos, incentivá-los, o professor olhou para mim, olhou para o quadro e disse, discretamente:
-Professora,o mês de março é escrito com C, cedilha.
Eu havia esquecido da cedilha, de tanto apavoramento!A única coisa que eu queria, naquele momento é que aparecese um buraco, igual àquele do metrô, que me levasse lá para o fundo.
Anos depois, ele foi meu professor na Faculdade. Foi com ele que aprendi tudo sobre Paulo Freire, que estava voltando ao Brasil. E ele foi uma das pessoas que mais me ensinaram e incentivaram a brigar por uma educação de qualidade. Ele é o professor Murilio de Avellar Hingel, que já foi Ministro da Educação, fez coisas excelentes no Ministério e é um dos defensores do Fundeb, há muito tempo.
Como você pode ver, eu tive a sorte de ter ótimos professores. E claro, que eles influenciaram e influenciam minha história de professor.E nunca mais esqueci da cedilha.
Depois conto mais coisas sobre eles e sobre alunos. Agora, vamos dar voz a outros colegas.
Mande a sua história, vai!

2 comentários:

Alline disse...

Ei, Fátima, amei este seu novo cantinho aqui.
Eu já dei aula também e qq dia conto minhas experiências, micos e histórias.
Cara, o Mobral existiu mesmo? Eu lembro que qdo estava na escola e tinha alguém que falava/escrevia/pensava qq coisa idiota a gente gritava: MOBRALLLLL.

Beijinhos

Paula Clarice disse...

Fátima, eu sou tão contra o apego que as pessoas têm por essas coisinhas (cedilha, acento...). Na minha opinião é isso que faz todo mundo detestar Língua Portuguesa: em vez de associarem com comunicação associam com um sistema de regras impossíveis de decorar e, pior, onde cada erro é visto como falta grave e não um pequeno esquecimento, como, na maioria das vezes, é. Beijo pra vc.